sábado, 25 de Outubro de 2014

Eyala (Por Eliana Luaia)

O assobio dos autocarros ocupava toda avenida e deixava-se entranhar em todos os becos, de lençóis e rios mais castanhos que os fios de cabelo da Lídia e de um ser, só de ser mesmo, mais comum que as cores que abraçavam a bandeira. Com os olhos desesperados, aproximei-me dos degraus compridos, um mais abaixo que outro, onde encontrei marcas daquele que um dia já foi. À minha frente, Luanda deixou-se pintar numa tela cinzenta, com todas as poesias e todos os jeitos. Na poesia, gritavam, com a sua transparência, rostos que queriam ser e gente, toda ela dos mesmos becos, que se deixavam embeber numa escuridão reluzente e acordavam até os olhos mais adormecidos do viajante da baixa, em dias de Cacimbo adiantado. Em ponta, juntavam-se também os assobios dos passos descalços e dos passos preenchidos, que traziam ares de cima e carregavam consigo a esperança fugidia, vendida nos postos outrora conhecidos. Os que vinham de baixo, limitavam-se a arrastar no asfalto cinzento, o peso de alguma ou outra coisa que um dia herdaram. Pelas mãos que carregavam aquele pincel importado, notava-se que era uma tela cansada, que sobrevivia com o brilho de um sol, que era todo o sol do mundo quando Março assim decidia. Algumas figuras que nela existiam, ainda tinham o seu reflexo espelhado no castanho dos rios e conseguiam, uma vez ou outra, desenhar melodias de dó para ré num invisível que não era para todos. Outras como Eyala, limitavam-se a observar entre um pedaço de vidro e muito de aço, todas as despedidas que Luanda dava ao final de cada dia.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A Realidade (Por Malú Costa)

Despertei ontem com o vibrar do telefone do meu marido. Mesmo depois de cotoveladas e empurra-lo ele não despertou. Decidi ver quem estava a ligar, mas o vibrar parou. Era a filha dele. Segundos depois, caiu-me o queixo ao ler a mensagem de SMS dela que dizia:
"Pai, essas festividades são para mim e para vocês (tu e a mãe). Se ela vier não será a mesma coisa."
Uau! Hoje não passo do "ela." Quando e como é que mudaram as coisas? Pensei
Estamos casados há 24 anos, juntos há 26. A filha dele, a Dânela, veio viver connosco seis meses após o nosso casamento. Como tinha apenas 15 meses, criei-a, até 10 anos atrás, como minha, sem a intervenção ou intromissão da mãe. A mãe apareceu no inicio da adolescência da Dânela e ainda notou-se reticente na sua aproximação. No fim de um ano, a Dânela mudou-se com a mãe que começara, na altura, uma relação nova e mudou por completo a forma como interagia com a filha.

Foi difícil pra mim. Não cheguei a fazer filhos meus, pois dediquei a minha vida a ela. Precisou da minha completa atenção, minha paciência, meu amor e carinho. Era, e é ainda, a minha menina.
Mesmo depois de se ter mudando com a mãe mantivemos contacto constante. Ela no principio ligava-me diariamente e passava os fins de semana connosco de duas em duas semanas. Ao entrar para a universidade a distância aumentou e os telefonemas quase não aconteciam, caso eu não pegasse no telefone.

domingo, 19 de Outubro de 2014

Épocas de Eleições (Por Neide Costa)

E este texto dedico àqueles que mesmo passando pela escola de condução nunca aprenderão a conduzir.

Tudo acontece nas férias de verão quando decido ir para casa e euforicamente digo aos meus amigos a semana em que vou chegar. Rapidamente a notícia espalha-se e toda Luanda fica a saber que brevemente as suas ruas se resplandecerão com a unicidade da minha pessoa. E como é de se esperar, os meus pretendentes, como aranhas fazedoras de teias, preparam-se para atacar. Mas nenhum ataque acontece sem antes se sondar o terreno.
A sondagem normalmente é rápida: eles querem confirmar se vou mesmo para a banda e tentam saber sem discrição alguma o meu estado civil. Sem demora prosseguem por lançar a seda em formato de espiral vertical com raios interligados. A teia fica tão perfeita e pegajosa que até abelhas rainhas caem nela. “Chacho já nu é chacho”! Qualquer mulher cai de quatro. E todo mundo sabe o que acontece quando uma mulher cai de quatro...
Depois de ganharem a minha confiança ou pequena aprovação, seja lá como se define, o romantismo perde-se pelo caminho e a coisa passa a ficar mais erótica. Na qualidade de mulher solteira, vou deixando a coisa rolar no simples prazer (em confissão vos digo) de alimentar o meu ego.
_”Quando nos encontrarmos vou morder esses teus lábios cor-de-rosa enquanto a minha mão desliza pelas curvas do teu corpo. Vou encostar-te na parede e apertar as tuas nádegas sussurrando safadezas no teu ouvido. Depois vou despir-te e lamber o teu corpo todo de cima para baixo, até encontrar a tua vulva e fazer-te delirar de prazer enquanto penetro a tua vagina. Vou mostrar-te o que é um homem de verdade. Vou te fazer mulher!”

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

De: Mins... Para: Tus (Por: Lua Poderole)

De: Mins
Para: Tus

Escrever para Tus hoje em dia é muito engraçado
Pois o coração e a mente se enrolam e o texto sai errado
Dizem que é assim que escreve um poeta apaixonado
Mins acha que é assim a textura de um sentimento enjaulado
Nunca sei bem o que dizer, bate sempre tudo ao lado

Estranho teu beijo, anseio por pecado?
Será que me perdoarias por um único sábado?
De gritos na madrugada e corpo pelado?
Mesmo sendo Tus o único culpado?
Tus e sua maldita ausência em noites de teclado!

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Fatalidade (Por Hamanene Kuvingua)

Sempre tive a humana tendência de endeusar-me quando oiço um problema alheio ou um erro comum, mas tenho a certeza que o semi-deus dentro de cada um de nós, não é nada mais do que a vaidade e o egoísmo vazio que nos sacia na monótona jornada de parecer melhor.

Sinceramente, chega a ser tão perverso que até quando instigados pelas normas da sociedade em sermos aceites, usamos o que podemos ter de mais nobre (a formação académica) como um convite ao elitismo moral que julgamos possuir para espezinhar os menos afortunados, e mesmo assim somos melhores. Melhores também parecemos quando usamos causas solidárias como plataforma pessoal só para parecermos credíveis, e a hipocrisia é que a nossa querida sociedade precisa disso, e assim somos melhores a despejar baldes de água na cabeça como um baptismo ao universo da escravidão e cegueira mental.

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Suzana (Por Rosema Matias)

Olá, sou uma jovem comum, e como todas as mulheres deste tempo tenho um segredo que deixará de o ser nestas páginas.
Tenho 21 anos, e desde que me conheço por gente que tenho tudo o que quero, quando quero e como quero. Posso dizer, sem vergonha nenhuma que sou mimada. E eu gosto disso!
Até com o meus namorados sempre foi assim, eu comandava, sempre ditei as regras do jogo, praticamente, era o homem da relação. Sempre tive muita facilidade em escapar das minhas puladas de cerca e afins. Era só levantar a voz, mudar drasticamente de rainha para plebeia, que conseguia dominar o namorado e sair sempre de qualquer enrascada ilesa. Claro que, todo mundo sabe que não há nada como um bom sexo para fazer as pazes, é uma mistura de amor e ódio, quente e frio, afecto e desapego, enfim..
Posso dizer que, sempre resolvi os meus problemas na relação com sexo. Para ser sincera, acho que os meus namorados gostavam disso ou... Ou não notavam!

Sou uma pessoa sexualmente muito activa, por vezes, pervertida e também reservada até ser descoberta. Visto o manto “da boa moça”, até que alguém chegue e tire ele de mim.
Desde tenra idade que noto a minha recaída para coisas relacionadas a sexo, de imagens no telefone à vídeos eróticos online. Por isso e pela facilidade que eu tinha nas minhas relações, sempre que pude traía quem estivesse comigo. Não que eu fizesse isso de maneira premeditada, muito pelo contrário, me sentia atraída pela adrenalina, pelo proibido e inusitado.
E numa dessas voltas conheci alguém, a princípio, e como sempre, nada promissor. Ele era mais velho que eu, tinha 27 anos, e nesses 27 anos já havia percorrido mais estrada do que eu e aprendia com ele todos os dias.

Eu era uma menina para aquele homem, sim já era um homem, daqueles difíceis de controlar, daqueles que todo mundo já tem ideia do que ele é. Vulgarmente as pessoas, e principalmente as mulheres da minha faixa etária o tratavam como “achado”, pois eu o achei.
O processo de conhecimento foi indescritível. Era algo novo e ao mesmo tempo, complementar àquilo que eu já sabia e a anos fazia. Sexo!
Fomos falando, mas ainda me sentia uma criancinha ao pé daquele homem feito.
Não tardou e entramos em sintonia, o que nos une foi mais forte e veio logo à tona. Nem preciso falar o que foi... O entrosamento foi tal, que ele se disponibilizou em vir à minha casa para nos provarmos. Eram 2 horas da noite e ele teria de subir 8 andares.

Esqueci-me de mencionar que ainda vivo com os meus pais, típico de patricinha, e que durante esses anos todos não me formei em escapadelas nocturnas.
Mas por aquele homem, que ainda era um mistério para mim, corri esse risco. Abri a porta de casa, que mais parecia um portão de uma masmorra de tanto barulho que fazia, e fui ter com ele. Estava de uma blusa leve, sem sutiã e de calção.
Fui recebida com um ardente beijo que no momento me fez esquecer que a porta de casa estava aberta. Ele colocou-me no colo e com as suas mãos másculas percorreu todo o meu corpo.
Depois daquela recepção calorosa de alguém que já não contava que eu fosse sair devido ao meu medo e demora, fui obrigada a chupá-lo... Oops, vou usar um termo mais politicamente correcto, fiz-lhe um broche e ele retribuiu-me com um minete bem feito.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Ponto Fraco (Por Rosene Maura)

Não precisava escorregar, minhas mãos amavam aquele travar, aquele frisado... Eu puxava e puxava, ela agitava-se.
Tirando a sua escultura física e o embalar das suas curvas, o escorregar dos gemidos feria-me a pele já arrepiada, já bem transpirada. Eu sabia que aquele conjunto de óleos naturais, era seu ponto fraco, passou a ser o meu também quando ela depois de despida, exibia aquele monte de matéria morta, com tanto volume, tanta nutrição , que parecia ter vida.

Sentia a leoa que me esperava, e precisava domá-la. Não me parecia tarefa fácil, mas, não havia nada mais excitante, mais puro, que aquele precisar.
Já de costas, roçando-se em mim, respirou dizendo: 
- Sou Tua... Tua... Tua!